quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Guerreiro dentro e fora do campo Novo ídolo celeste, o argentino Montillo dá uma lição de vida na família e no futebol

Postado por: Alan Beltrano
Fonte: SUPERESPORTES.COM.BR

Mineral Image


A torcida do Cruzeiro sonhou com a chegada do craque Juan Román Riquelme e acordou com outro argentino, Walter Damián Montillo. Em julho de 2010, quando o hermano menos famoso desembarcou em Belo Horizonte, os cruzeirenses mal poderiam imaginar que a emenda sairia tão melhor que o soneto. Em pouco tempo, Montillo, de 27 anos, se tornou ídolo. Preencheu uma lacuna fundamental no meio-campo celeste, órfão de um craque desde a despedida do armador Alex, em 2004. Mas tão importante quanto a habilidade e os gols é a lição de superação fora das quatro linhas que ele deixa para todos os torcedores, independentemente da cor da camisa.

Com a mesma maestria com que desfila seu talento pelos gramados, Montillo dribla um drama familiar: a luta pela vida do caçula da família, Santino, portador de síndrome de Down, e que com apenas um ano já passou por duas cirurgias delicadas. Guerreiro como o pai, o pibe batalha pela sobrevivência. E acumula vitórias. Suadas, tanto quanto as disputas que o armador argentino trava nos campos.

Mineral Image
Montillo caiu nas graças da torcida
“Cada sorriso que ele abre para nós faz a alegria da nossa vida”, conta Montillo. E a capital mineira tem capítulo 
especial nessa historia, pois não abraçou apenas o jogador. Acolheu também o pai, a mulher de Montillo e os filhos: Valentín, de 3 anos, e Santino. A gratidão é tamanha que o carinho do povo mineiro é a principal característica que o argentino destaca ao ser perguntado sobre o que mais admira em BH. “Gosto do jeito das pessoas, sempre afetuosas conosco. Às vezes, elas não sabem que meus filhos têm um pai jogador de futebol e os tratam bem, com muito respeito. Para mim, é muito importante.”

Ele só tem tranquilidade para desempenhar bem seu papel como jogador porque montou toda uma estrutura para atender as necessidades de Santino. Justamente por isso, pensa duas vezes ao negociar sua transferência para o exterior. “Uma coisa pequena numa criança normal pode se transformar em algo grave nele. Sempre precisamos ter essa precaução, de que não ocorra nada com o Santino. Para isso, contamos com uma equipe médica que cuida dele. Se eu sair daqui, tenho de ver isso para onde for também”, ressalta.

Montillo fala com naturalidade dos problemas enfrentados com o caçula: “O tema da síndrome não mexeu conosco. Ficamos muito contentes com o nascimento dele. Mas a preocupação foi a cirurgia que ele teve de fazer no estômago, logo nos primeiros dias de vida, que era arriscada. Isso, sim, foi difícil. Depois veio a segunda cirurgia, no coração, já aqui em BH. Agora ele está bem. Mas é uma luta constante da minha família que não recomendo a ninguém”.

A receita para contornar a atribulação e cumprir sua missão em campo é simples, segundo o argentino: “Sempre falo com a minha mulher que preciso continuar trabalhando porque eles precisam de mim. No Cruzeiro, tanto a diretoria quanto o Cuca, que era o meu técnico na época, se comportaram muito bem, deram o tempo que eu precisava para estar com o meu filho. O Cruzeiro precisava de mim, tenho contrato assinado aqui, e continuei trabalhando. As questões familiares, às vezes, precisam ser deixadas de lado. Minha mulher compreendeu e teve muita força na minha ausência”.

Mineral Image
Craque pensa no futuro e na carreira
A fonte de tanta perseverança está na família. Com Melina, com quem está casado há oito anos, a cumplicidade é total. “Ela é a pessoa que está ao meu lado em todos os momentos”, diz. É a parceria mais antiga do jogador. Eles se conheceram em Lanús, terra natal do craque, onde ainda moram o pai, Walter, e a mãe, Martha, além das irmãs, Sabrina e Pámela. Os olhos de Montillo brilham ao falar do patriarca, seu grande exemplo de vida. “Minha família sempre foi humilde, mas nunca nos faltou nada. Graças a Deus e ao meu pai, que trabalhou a vida toda. Sou muito agradecido a ele”, conta, orgulhoso.

Como a maioria dos jogadores de futebol, o gosto pelo esporte começou nas peladas do bairro. Mas a vida de profissional estava longe de suas principais aspirações. Ele queria, sim, vivenciar a rotina de jogos e entrevistas. Mas do lado de cá, como jornalista esportivo. Aos 17 anos, começou a encarar o futebol com mais seriedade no San Lorenzo, e traçou seu destino: “Completei o segundo grau e queria ser jornalista. Mas quando virei jogador, tive de deixar os estudos de lado”.

O mundo da bola o levou ao México, onde defendeu, sem muito sucesso, o Monarcas Morelia. “Morava a quatro horas da Cidade do México e meu maior medo era a insegurança. Como todo mundo fala que é perigoso, eu quase não saía à noite.” Depois de um breve retorno ao San Lorenzo, mudou-se para Santiago, onde defendeu a Universidad de Chile e viveu momentos determinantes de sua vida e carreira. Lá, conheceu o sabor do sucesso, a idolatria da torcida e acompanhou o nascimento de Valentín e Santino. “No Chile, era outra história, totalmente diferente do México. Santiago é um lugar muito bom para morar. Temos saudade dos amigos que deixamos lá”, diz.

O espevitado Valentin, aliás, é personagem singular. Volta e meia aparece na Toca da Raposa II devidamente vestido com o uniforme celeste, para acompanhar os treinos do pai. Não contente em assistir, entra em campo e arrisca chutes na bola, divertindo todos. “Ele acha que também é jogador”, conta Montillo, aos risos. “Desde o ano passado está na escolinha, já fala português e está mais adaptado do que nós”, completa.

 Jorge Gontijo/EM/D.A Press
Valentín se diverte na Toca da Raposa
Nas raras horas de folga, entre um jogo e outro, a família é prioridade. “Saímos pouco, para almoçar, jantar. Às vezes é difícil, porque o pessoal se aproxima, pede para tirar fotos. Sou tímido, mas só fora de campo. Mesmo assim, tento aproveitar as folgas com os meus filhos, levá-los a algum parque, cinema”, afirma. Ele já visitou Ouro Preto e, fora de Minas, conheceu a cidade mais argentina do Brasil: Búzios.

Seu círculo de amizades se restringe aos companheiros de equipe. Os mais próximos são o uruguaio Victorino (com quem jogou no Chile), o paraguaio Ortigoza e Naldo. Também é do vestiário que sai o gosto musical. “A primeira cantora que começamos a escutar aqui foi a Ivete Sangalo. Agora, estamos ouvindo música sertaneja: Jorge e Matheus, Gustavo Lima, Fernando e Sorocaba. Até já coloquei no meu Ipod para ouvir”, revela. A baiana, inclusive, ficou sabendo do fã argentino e por meio do armador Roger enviou a ele um DVD autografado, que tem lugar especial na prateleira do apartamento – alugado – em que mora com a família no Bairro Belvedere, Zona Sul de BH. “Adoro a tranquilidade do lugar”, destaca Montillo, que ainda não se aventurou a comprar um imóvel na cidade.

Adquirir um apartamento está em seus planos, mas na Argentina, como forma de investimento. De vida regrada, ele gasta seu dinheiro de maneira moderada, já pensando no futuro. “Se quero comprar algo para mim, para meus filhos e para a minha mulher, e posso, é claro que vou comprar. Mas tenho metas a cumprir. Não sou um cara que gasta tudo o que ganha. Sempre guardo um pouco. A carreira é curta, a gente não sabe o que vai ocorrer. É preciso ser inteligente para depois viver com o que conseguir no futebol”.

Antes de pendurar as chuteiras, contudo, espera mostrar seu talento na Europa, sonho que acalenta e não esconde de ninguém. “É meu desejo jogar numa equipe grande da Europa, mas não estou com pressa para sair, porque tenho contrato até 2015 e estou muito bem no Cruzeiro”. Depois desse, nenhum projeto previamente definido: “Vou jogar até quando o corpo aguentar. Quero fazer o curso de treinador e gostaria de continuar ligado ao futebol porque é o que gosto, mas não sei. No futuro, pode ser que me canse também, e queira me dedicar mais à família. Vamos ver, falta muito tempo”. Ainda bem, para os fãs do futebol do craque.

Gilmar Laignier/Superesportes
Montillo e família: a esposa Melina, o filho mais novo Santino e o garotinho Valentín

Nenhum comentário:

Postar um comentário